Resenha | Mestre das Chamas, de Joe Hill

quinta-feira, setembro 21, 2017


Eu passei a tarde inteira de hoje pensando em como escrever a resenha desse livro - que se tornou uma das melhores leituras que fiz neste ano. Então, se isso aqui ficar extenso ou profundo demais, por favor, relevem. Foi difícil conter a empolgação. <3
"Como é possível viver quando todo dia é 11 de Setembro?"
Todo mundo ouviu dizer que o mundo já se acabou em água, e que o próximo fim de tudo será com fogo. Pois bem, é partindo dessa premissa que Joe Hill escreve - com maestria -  sobre uma doença que está dizimando a humanidade. A Escama de Dragão faz com que os infectados peguem fogo - literalmente! - e a cada dia que passa, mais pessoas aparecem com os sintomas, enquanto não há o menor sinal de cura. Sim, as pessoas explodem! Pegam fogo, brilham, queimam e explodem como bombas. Agora imagine isso acontecendo no meio da rua, dentro dos hospitais e em campos de quarentena que mais parecem o retrato do inferno... É perturbador!
"Uma pessoa pegou fogo, depois outra, depois uma terceira, feito uma sequência de fogos de artifício, e um dos seguranças entrou em pânico e travou a porta para impedir qualquer um de sair."
Uma vez que o mundo entra em caos, as pessoas perdem o controle de absolutamente tudo. Não existe lei, nem segurança e a única coisa que resta é a fé - um gatilho para os fanáticos, uma corda no pescoço para os céticos. A página do Google não existe mais. Já se imaginou nessa situação? O açúcar acabou e há quem mate para sentir um doce sabor na língua. O mundo enlouqueceu. Enquanto tudo isso acontece, o livro foca em um grupo de pessoas que consegue "controlar" a doença numa colônia no meio da mata. Nos primeiros dias é tudo muito lindo, mas é lá que mora o horror. O ser humano e a necessidade de poder é o verdadeiro vírus do mundo.
"Todo mundo vai morrer. Esta é a última geração. Acho que a gente sempre soube isso. Mesmo antes da Escama do Dragão. A gente sabia que ia sufocar com a nossa própria poluição, e que ia faltar comida, ar e todo o resto."



A escrita visual de Joe Hill me colocou dentro da colônia e me fez uma de suas moradoras. Eu sentia o cheiro de fumaça e carne queimada. Eu sentia o medo, o pavor, o desespero e o vislumbre. Além da abordagem - sensacional! - da natureza humana, Hill me fez voltar os olhos para mim mesma em vários momentos. E eu deixo aqui uma pergunta para vocês: diante de uma doença que ameaça a sobrevivência da humanidade, de que lado vocês ficariam? Dos saudáveis ou dos infectados? Uma vez que os meios de comunicação entraram em pane, no que acreditar? No que ter fé?
"Mesmo antes da Escama de Dragão a maioria das vidas humanas era injusta, brutal, cheia de perda, tristeza e confusão (...) A maioria das pessoas passou a vida faminta e descalça, fugindo de uma guerra aqui, de uma fome ali, de uma epidemia aqui, de uma enchente acolá. Mas as pessoas precisam cantar (...) Quando você canta é como dar de beber a quem tem sede. Uma gentileza. Isso faz você brilhar (...) Os outros podem cair e pegar fogo, eles vão cair e pegar fogo. Não existe nenhum de nós que não tenha visto isso acontecer. Mas aqui ninguém pega fogo. Aqui nós brilhamos. Uma alma assustada e sem fé é o combustível perfeito e o egoísmo é tão ruim quanto querosene. Quando você dá remédio a um doente, a felicidade dele vira o seu remédio. Alguém bem mais inteligente do que eu disse que o inferno são os outros. Eu digo que você está no inferno quando deixa de dar a quem precisa porque não suporta ter menos. Nesse caso, está abrindo mão é da sua alma. É preciso cuidar uns dos outros, caso contrário viver é andar sobre cinzas, um fósforo pronto para ser aceso."

Quanto aos personagens, afirmo com absoluta certeza que todos são construídos com camadas e mais camadas críveis e profundas, do jeito que só um escritor de qualidade sabe fazer. Com Mestre das Chamas, Joe Hill entrou para a minha lista de "quero ler tudo desse autor". Eu amei o livro do início ao fim e recomendo para todo mundo que procura uma leitura intensa e incômoda - no sentido positivo da palavra.
"Não existem atos que não sejam egoístas. Quando as pessoas fazem coisas para os outros, é sempre por causa dos seus próprios motivos psicológicos e pessoais."

+ algumas curiosidades:

- Joe Hill deixou fez referência e homenagens a alguns autores nesse livro, como Stephen King (sempre o papai ), J. K. Rowling, John Wyndham e Ray Bradbury.

- Alguns personagens de Mestre das Chamas são muito parecidos (fisicamente e psicologicamente) com personagens de Stephen King no livro A Dança da Morte. Um desses personagens, chega até a enfrentar o mesmo dilema.

- Joe Hill está dominando a arte de interligar seus livros (assim como Stephen King faz).Em Mestre das Chamas, um personagem cita a Terra do Natal - tema central do seu livro Nosferatu.

+ sobre o final do livro | sem spoilers:

Pelo que pude observar em outras resenhas aqui na blogosfera e no bookstagram, é que o final de Mestre das Chamas tem dividido opiniões. Alguns consideram que o ficou em aberto, outros acham que não. Eis o que eu acho: o final não poderia ter sido diferente, e se fosse, não faria jus à ideia do livro, nem à mensagem que Joe Hill passou durante as quase seiscentas páginas. Por incrível que pareça, Mestre das Chamas não é um livro sobre um vírus/esporo. A Escama de Dragão é somente o pano de fundo que Hill usa para abordar a natureza humana, o homem em si, que despido de regras sociais, se torna não aterrorizante (ou até mais!!!) do que uma pandemia. Portanto, o desfecho do livro pode até ter ficado em aberto (o que não me incomoda), porém foi crível, real e verdadeiro.
"Ninguém fala com um oceano, num um oceano responde. Você simplesmente... deixa ele te carregar."

Sinopse: Ninguém sabe exatamente como nem onde começou. Uma pandemia global de combustão espontânea está se espalhando como rastilho de pólvora, e nenhuma pessoa está a salvo. Todos os infectados apresentam marcas pretas e douradas na pele e a qualquer momento podem irromper em chamas. Nos Estados Unidos, uma cidade após outra cai em desgraça. O país está praticamente em ruínas, as autoridades parecem tão atônitas e confusas quanto a população e nada é capaz de controlar o surto. O caos leva ao surgimento dos impiedosos esquadrões de cremação, patrulhas autodesignadas que saem às ruas e florestas para exterminar qualquer um que acreditem ser portador do vírus. Em meio a esse filme de terror, a enfermeira Harper Grayson é abandonada pelo marido quando começa a apresentar os sintomas da doença e precisa fazer de tudo para proteger a si mesma e ao filho que espera. Agora, a única pessoa que poderá salvá-la é o Bombeiro – um misterioso estranho capaz de controlar as chamas e que caminha pelas ruas de New Hampshire como um anjo da vingança. Do aclamado autor de A estrada da noite, este livro é um retrato indelével de um mundo em colapso, uma análise sobre o efeito imprevisível do medo e as escolhas desesperadas que somos capazes de fazer para sobreviver.
Livro recebido em parceria com a Editora Arqueiro.

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