1977 ENFIELD | Relatos sobrenaturais de poltergeist

terça-feira, junho 20, 2017


Quando criança, cresci ouvindo minha vó contar histórias de terror sobre criaturas assombrosas que surgiam das águas dos rios; buracos negros que sugavam crianças mal comportadas e velhos do saco que sequestravam crianças desacompanhadas na rua. Geralmente eu já conhecia todo tipo de história macabra que minha vó contava quando sentávamos em frente a casa dela, ambas em cadeiras de balanço envoltas em lençóis finos numa falsa sensação de proteção. Relembrando esses bons tempos, posso afirmar que essa minha curiosidade pelo macabro e pelo sobrenatural foi despertado por minha querida avó, ela enchia minha cabeça de informações que aguçavam minha imaginação e me deixavam com medo de cair no sono logo depois. Mas, como eu disse, eu geralmente já conhecia o padrão de histórias que ela me contava. Até que um dia, ela começou uma história diferente. Não eram monstros sem rostos, muito menos escamosas criaturas aquáticas. Naquele dia, minha vó me contou uma história sobre móveis que se mexiam sozinhos, paredes que batiam violentamente e quadros que caiam misteriosamente no chão.

Poucos dias depois, um quadro de A Paixão de Cristo que estava na sala dela foi alvo de estranhamento pelo cachorro da casa. Ele latia freneticamente olhando para a imagem. Rosnava, choramingava e não adiantava quantas vezes meu avô e meu tio ordenassem que ele parasse. Foi então que, para a surpresa de todos, o cachorro foi jogado para trás. Do nada. Como se alguém o tivesse chutado. Mas não havia nada na frente dele além da parede e do quadro. Todos ficamos aterrorizados. No dia seguinte minha avó se desfez do quadro e nunca mais tocamos nesse assunto. Até agora, já que estou relatando à vocês. Pra ser sincera, eu nem lembrava desse ocorrido até começar a ler 1977 ENFIELD, um livro de relatos sobrenaturais escrito por Guy Lyon Playfair, um dos maiores especialistas em mediunidade que investigaram os fenômenos mundialmente conhecidos como o “poltergeist de Enfield”. Ele morou no Brasil durante anos, e é especialista na obra e na vida do médium Chico Xavier.


Bom, agora chega de falar de mim, afinal, esta foi a última história que minha avó me contou. Depois do ocorrido com o quadro, o assunto das noites em que eu passava na casa dela mudou. Na verdade, passamos a conversar cada vez menos. Com o tempo, fui deixando de passar as noites sentada na varanda com ela e ficava com minhas primas brincando de boneca. É estranho e engraçado pensar que o maior vínculo que minha vó e eu tínhamos naquela época fossem justamente histórias de terror. Hoje continuamos unidas, mas se eu a pedir para contar uma história, ela se limita a dizer que não sabe mais. Acho que aquele dia a assustou demais. E ela tem todo o direito de se manter em silêncio.

Há 40 anos, em Enfield, no subúrbio de Londres, havia uma família de classe média tomada pelo desespero. Os gritos despertavam os vizinhos, a polícia se tornava inútil, os móveis não paravam de ranger sozinhos e cada naquele lugar era um tormento. O caso do “poltergeist de Enfield” é real, e este livro mostra justamente a junção dos fatos e provas de que tudo aquilo realmente aconteceu. Mas, é claro que acreditar ou não fica a critério do leitor. Entretanto, eu não duvidei em nenhum momento.
"Grande parte da atividade foi gravada em fita cassete enquanto estava em curso, e alguns fenômenos foram fotografados por um profissional experiente. Parte dela foi até mesmo gravada em vídeo, e uma grande parcela de tais fenômenos foi testemunhada, em boas condições, por no mínimo trinta pessoas, inclusive por mim”.
Tudo começa com móveis se mexendo pela casa, objetos sumindo e reaparecendo (e se eu disser que meus post-its sumiram justamente enquanto eu lia este livro vocês acreditariam?) e barulhos estranhos. A família Harper que já estava aterrorizada quando nem a polícia pôde ajudar diante do fenômeno paranormal que presenciou, recorreu a ajuda da mídia e de pesquisadores profissionais. Segundo Guy Lyon Playfair, esses fenômenos poltergeist não costumam causar problemas maiores além de assustar, entretanto, parece que dessa vez, uma das filhas da família sofreria as consequências de algo além de uma travessura.


1977 ENFIELD é um livro completo e cumpre a sua proposta. Em alguns momentos, como o próprio autor adverte, certas passagens podem parecer tediosas ou repetitivas, mas ele justifica afirmando que tudo aquilo são descrições de momentos verídicos e, ao contrário da ficção, a vida real tende a ser mais linear, menos coesa e não tão surpreendente.
 “Ao longo dos últimos três meses de 1977, diversas coisas estranhas aconteceram em sua residência. Luzes acendiam e apagavam sozinhas, almofadas e travesseiros voavam pelo quarto, frutas saltavam da fruteira, a torneira da banheira abria sozinha, a porta do refrigerador abria e fechava por conta própria, e uma poça d’água surgiu no piso do banheiro".
Como foi dito no livro, somos programados a negar o que não conseguimos entender. E isso me lembrou bastante o caso que citei do quadro na casa da minha avó. Com o tempo, todos nós fomos esquecendo. Ninguém mais fala sobre isso e se, por ventura, alguém menciona o ocorrido, todos riem e tratam como se fosse algo absurdo, ou seja, estão em negação. Não conseguimos explicar, então fingimos que não aconteceu, ou que não aconteceu exatamente como aconteceu. E é por isso que assuntos como esses, mesmos com diversas provas, ainda são tratados como farsa e manipulação.

Eu indico a leitura de 1977 ENFIELD para leitores curiosos e que tenham em mente que o livro é um relato, e não uma romantização. Além da belíssima e caprichada edição em capa dura da DarkSide Books, o livro conta com um marcador de fita e imagens selecionadas que completam as informações sobre o caso.

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1 comentários

  1. Amei sua resenha! ♥
    Nos esquecemos desses eventos e geralmente, quem está mais próximo, é visto como louco pelos céticos.
    Abraços

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